O processo de queda dos juros brasileiros, e mais especificamente do Sistema Financeiro de Habitação, está ampliando as perspectivas positivas da construção civil. Em Curitiba, ainda que o volume de obras novas esteja 8% inferior na comparação do primeiro quadrimestre do ano com o mesmo período de 2008 - reflexo direto da desaceleração econômica no último trimestre -, o número de construções finalizadas no mesmo período foi 61% superior.
A perspectiva é de continuidade de números positivos, de acordo com o presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil no Paraná (Sinduscon-PR), Hamilton Franck. Ele estima fechar dezembro de 2009 com crescimento de pel o menos 10% sobre o ano passado, que, mesmo com a crise, já foi bastante positivo. Parte desse otimismo é consequência de várias condições favoráveis, como os incentivos fiscais do governo federal, o aumento dos prazos e a simplificação dos contratos de financiamento para a casa própria.
Dados da Caixa Econômica Federal apontam que, em todo o estado do Paraná, o número de contratações de financiamento habitacional cresceu 82% em volume e 93% em pessoas beneficiadas, considerando números de janeiro a maio. No total de 2009, já se computou 20.430 unidades habitacionais no valor de R$ 858 milhões. Apenas o programa Minha Casa, Minha Vida, do governo federal, prevê criar até o fim do ano mais de 44 mil unidades, com alocação de R$ 1,72 bilhão para o Paraná. Com isso, o gerente regional da Caixa, Gueber Roberto Laux, estima ultrapassar R$ 2 bilhões em crédito habitacional no estado.
Bolha
O salto de 61% de obras concluídas em Curitiba é resultado do grande número de construções lançadas em 2008, uma "bolha" do setor. "Estávamos crescendo de forma exponencial, atribuída em parte pelo excesso de euforia do consumidor e também pelo otimismo das incorporadoras", diz. Ainda que pareça estranho, Franck diz que a desacelerada por que o setor passou em dezembro, com a crise, foi benéfica. De acordo com ele, estima-se que 50% dos compradores de imóveis naquele período estavam contaminados pela especulação. "Muitos estavam adquirindo imóveis na planta, com perspectiva de revender com lucro no lançamento. Ou seja, praticamente metade do investimento voltaria ao mercado em curto prazo, de forma desordenada", conta.
Insumos
O diretor da Nakid Construções Civis, Nelson Elias Nakid, concorda que o crescimento do ano passado estava em níveis insustentáveis, com alterações negativas para a cadeia. "Foi um período de demanda completamente fora da curva: o mercado já estava sofrendo com falta de mão de obra e alta nos materiais. Durante o aquecimento, chegamos a pagar R$ 15,50 pelo quilo de alumínio. Hoje ele voltou ao preço normal, de R$ 10", conta. O aumento nos insumos foi generalizado, sendo visto também em concreto e fios. "As encomendas de aço demoravam 90 dias para chegar, quando em períodos de normalidade chegam na semana seguinte. Ou seja, estávamos em um ritmo absolutamente fora do normal", afirma.
Outro efeito colateral negativo do período passado diz respeito a obras públicas, que prevêem contrato de no mínimo 12 meses para execução. Com os preços muito instáveis, Nakid diz que os contratos ficam comprometidos. "De um lado as empresas não podem repassar as margens porque as licitações são muito competitivas, do outro a instabilidade acaba gerando rescisões de contratos e - em casos mais extremos - quebra de empresas", conta.
Deflação
A retomada do mercado em crescimento, porém dentro de padrões de normalidade, também pode ser constatado avaliando os resultados do índice de preç os da construção civil, o CUB. Considerando os últimos três meses, os dois primeiros tiveram índice negativo, com deflação, e o resultado de maio ficou em 0,03%. Junho deve ter acréscimo porque é data-base de reajuste salarial da mão de obra setorial, no entanto - segundo sua avaliação - os encargos com a folha não devem aumentar muito além de 2% no índice. "Certamente hoje estamos trabalhando mais dentro da realidade, com um cenário de otimismo mais sólido, completa Nakid.
Fonte: Gazeta do Povo (PR)